A essência da Transcendência é a real natureza da Eternidade!
- Melchizedek Maharaji -

Ayahuasca um Enteógeno

A ayahuasca um enteógeno

AYAHUASCA UM ENTEÓGENO

por Dr. Rodrigo Figueiredo Abreu (CRM-GO: 12874)

A Ayahuasca, bebida milenar dos índios provenientes da América do Sul, especificamente da região amazônica, é utilizada como um instrumento espiritual de extrema religiosidade. Sua etimologia vem de Aya, significando “pessoa morta, alma, espírito” e waska que significa “corda, liana, cipó ou vinho”. Portanto, seria algo como “corda dos mortos” ou “vinho das almas”.

A Ayahuasca consiste na decocção do cipó Banisteriopsis caapi (planta da família Malpighiaceae) e das folhas do arbusto Psycotria viridis (da família Rubiaceae). O cipó, popularmente conhecido como mariri ou jagube, é nativo da Amazônia e dos Andes e possui em sua composição os alcalóides β-carbolinas inibidores da MAO (mono-amino oxidase), enzima responsável pela metabolização de monoaminas, como serotonina, dopamina, adrenalina e noradrenalina. Seus princípios ativos de maior concentração são: harmina, harmalina e tetra-hidro-harmina, variando de 0,05% a 1,95% (McKenna et al., 1998). Por sua vez, as folhas da planta conhecida como chacrona ou rainha possui em sua composição o alcalóide indólico N, N-dimetiltriptamina (DMT) em concentração de 0,1% a 0,66% que age sobre os receptores da serotonina (McKenna et al., 1998).

Baseado em análises quantitativas do chá, 200mL de Ayahuasca possui 30mg de harmina, 10mg de tetra-hidro-harmalina e 25mg de DMT (McKenna et al., 1998). Como são inibidoras da monoaminoxidase (MAO), as β-carbolinas podem aumentar os níveis de serotonina no cérebro e o efeito primário de altas doses dessas substâncias é a sedação provocada pelo bloqueio da desaminação da serotonina (McKenna et al., 1998). No chá Ayahuasca, as β-carbolinas inibem a MAO, protegendo o DMT da degradação pela mesma (McKenna et al., 1998).

A consideração da Ayahuasca enquanto “droga alucinógena” é, em prâmetros científicos, uma afirmação equivocada. Segundo o CONAD, Conselho Nacional sobre Drogas, uma substância para ser considerada droga precisa estar presente em uma concentração de 2,0% ou superior a isso. A DMT, a substância de maior efeito psicoativo da Ayahuasca, apresenta-se nela em uma concentração sempre inferior a 2,0% , geralmente em torno de 0,02%, ou seja, em uma quantidade no mínimo cem vezes menor do que o índice exigido para que pudesse ser considerada uma droga. Além do mais as drogas geram tolerância, abstinência, comportamento de abuso e perda social. E a Ayahusca não preenche nenhum desses quatro critérios.
Ação da DMT e das β-Carbolinas
O RECEPTOR DA SEROTONINA (5-HIDROXITRIPTAMINA)
A serotonina, ou 5-hidroxitriptamina (5-HT) se distribui amplamente nos tecidos animais (Katzung, 1998). Na glândula pineal, atua como precursora da melatonina, um hormônio estimulador dos melanócitos (Katzung, 1998). Mais de 90% da serotonina do organismo são encontrados nas células enterocromafins do trato gastrintestinal (TGI) (Katzung, 1998). No sangue, a serotonina é encontrada nas plaquetas, que são capazes de concentrar a amina por meio de um mecanismo transportador ativo (Katzung, 1998). É encontrada também, nos núcleos da rafe do tronco cerebral, que contém corpos celulares de neurônios triptaminérgicos (serotoninérgicos) que sintetizam, armazenam e liberam a serotonina como seu neurotransmissor (Katzung, 1998).

Os neurônios serotoninérgicos cerebrais estão envolvidos em diversas funções como sono, humor, regulação da temperatura, percepção da dor e regulação da pressão arterial (Katzung, 1998). Pode estar envolvida ainda, com condições patológicas, tais como depressão, ansiedade e enxaqueca. Neurônios serotoninérgicos são encontrados também no sistema nervoso entérico do TGI e em torno dos vasos sangüíneos (Katzung, 1998). A serotonina é metabolizada pela MAO em 5-hidroxindolacetaldeído (Katzung, 1998).

A serotonina exerce muitas ações mediadas por receptores na membrana celular. O receptor 5-HT1a tem distribuição pelos núcleos da rafe e hipocampo, diminuindo o AMP cíclico e levando à hiperpolarização da membrana causada pelo aumento da condutância de K+. O receptor 5-HT1b aparece no globo pálido e gânglios da base e sua estimulação leva à diminuição do AMPc. O receptor 5-HT1c ocorre no plexo coróide e hipocampo gerando também aumento do IP3 (inositol-trifosfato) nesses locais (Katzung, 1998).

O 5-HT2 distribui-se pelas plaquetas, músculo liso, córtex cerebral e fundo do estômago, causando aumento do IP3 (Katzung, 1998). Esse aumento de IP3 significa, ao final do mecanismo, aumento da secreção e da motilidade desses órgãos e tecidos. .
Os principais efeitos da serotonina no sistema cardiovascular são: contração do músculo liso e vaso constrição potente (exceto em músculos esqueléticos e no coração); no coração causa vasodilatação e agregação plaquetária ocasionada pela ativação do 5-HT2 de superfície (Katzung, 1998). No TGI, causa contração da musculatura lisa, aumentando tônus e facilitando o peristaltismo. A produção excessiva de serotonina em tumores associa-se à diarréia intensa (Katzung, 1998).

Sobre a respiração, a serotonina tem pequena ação estimulante do músculo liso bronquiolar (Katzung, 1998). No sistema nervoso, essa substância é estimuladora potente das terminações nervosas sensoriais para dor e prurido. Além disso, é ativadora potente das terminações quimio-sensíveis localizadas no leito vascular coronário, associada à bradicardia e hipotensão (Katzung, 1998).
A DIMETILTRIPTAMINA
A DMT atua como agonista dos receptores 5-HT1a, 1b, 1d e do 5-HT2a e 2c. Porém, por via oral, ele é inativado através da desaminação sofrida pela ação da enzima MAO intestinal e hepática. Os efeitos aparecem de 30 a 45 minutos, aproximadamente, e podem durar até quatro horas (Mckenna et al., 1998).

AS β-CARBOLINAS
Como são inibidoras da MAO, as β-carbolinas bloqueiam a desaminação intestinal da DMT possibilitando a chegada desta ao cérebro, mesmo por via oral (Callaway et al. 1999). Elas ainda aumentam os níveis de serotonina, dopamina, norepinefrina e epinefina no cérebro. Os efeitos sedativos primários de altas doses de β-carbolinas são resultantes do bloqueio da desaminação da serotonina (Cazenave, 1996). A tetra-hidro-harmina (THH) é a segunda β-carbolina mais abundante na Ayahuasca e atua como um fraco inibidor da recaptação do receptor 5-HT e inibidor da MAO. Portanto, a THH pode prolongar a meia vida da DMT por bloquear a sua recaptação intraneuronal (McKenna et al., 1998). Por outro lado, a THH pode bloquear a recaptação neuronal da serotonina, resultando em altos níveis deste neurotransmissor na fenda sináptica, atenuando assim os efeitos da ingestão oral da DMT por competir com os sítios receptores pós-sinápticos (McKenna et al., 1998).

A ação da bebida se deve, portanto, à interação das β-carbolinas presentes no Banisteriopsis caapi com a DMT contida na Psycotria viridis. Juntas elas estabelecem entre si uma relação de potencialização de seus efeitos isoladamente. Levando-se em consideração que as β-cartolinas aumentam as concentrações de DMT, além da própria serotonina.

Os principais efeitos da ayahuasca
A ação da Ayahuasca conhecida como “miração” é uma manifestação específica e freqüente, caracterizada por visões de animais, “seres da floresta”, divindades, demônios, sensação de voar, substituição do corpo pelo de outro ser (homem ou animal), dentre muitas outras, de acordo com a experiência individual (Cazenave, 2000). Tal aspecto de religiosidade por parte daqueles que fazem uso da bebida faz com que ela se categorize enquanto um enteógeno. Os chamados “estados alterados de consciência” provocados pela Ayahuasca podem ser considerados como alterações da percepção, cognição, volição e afetividade (Labigaline, 1998).

A maioria dos alucinógenos que atuam sobre o receptor 5-HT leva ao fenômeno de tolerância, que se caracteriza pela necessidade de doses cada vez maiores para se conseguir os mesmos efeitos ou pela diminuição do efeito inicial, quando a mesma dose é utilizada (Labigaline, 1998). A DMT mostrou-se uma exceção em estudo feito em 1997, o qual demonstrou que essa substância, em uso isolado, não leva ao desenvolvimento de tolerância crescente após doses subseqüentes (Labigaline, 1998).

A explicação dos efeitos dessas plantas sobre a mente humana é atribuída, entre os usuários, “ao transporte a regiões etéreas, autoconhecimento, contatos com o mundo espiritual, divindades e outras forças” (Desmarchelier et al, 1996; Luna, 1984). Nos rituais indígenas, os usuários relatam que a bebida “libera a alma de seu confinamento corporal” (Shultes & Hofmann, 1982). De fato, a experiência com a Ayahuasca é um êxtase religioso, um divino contato com os planos extraordinários da existência humana, uma conexão para além da tridimensionalidade.

Os principais efeitos físicos relacionados ao uso da Ayahuasca são náuseas, vômitos e diarréia. Também incluem: aumentos leves da pressão arterial, dos batimentos cardíacos e incoordenação motora. Após o uso de grandes doses há relato de que os usuários tornam-se frenéticos e agitados por dez a quinze minutos aproximadamente. No entanto, é mais comum manifestarem prostração e sonolência. Há referência ainda à audição de zumbidos, formigamento de extremidades, sudorese e tremores (Schultes, 1980).
Considerações finais
A Ayahuasca atravessa séculos e séculos, e para muitos de nós, xamãs, cientistas, antropólogos, artistas etc., continua sendo um grande enigma, algo a ser descoberto, desvelado, compreendido na sua integridade e inteireza. No entanto, ainda estamos longe de alcançarmos a explicação para o fenômeno da comunhão com esta bebida sagrada, já que a cada contato ritualístico, a Ayahuasca nos proporciona uma experiência completamente nova e nos mostra universos paralelos na grandeza da Divina Criação.

A Ciência se esforça sobremaneira para entendê-la na sua tridimensionalidade molecular, nos seus efeitos fisiológicos e impossibilidade de dependência química. O seu uso ou mesmo a observação de seus efeitos é um grande meio para o entendimento da mente humana, em todos os seus processos psicológicos de expansão consciencial e visualização dos planos interiores. De tal forma ela se torna uma ponte concreta para a cura de recalques, traumas, vícios ou outras formas de pensamentos e ações obsessivas.

A Ayahuasca é para a consciência assim como o microscópio é para a Biologia ou o telescópio para a Astronomia. Ela é um eficaz instrumento para fazer-nos ver e compreender a realidade de nossa natureza interior, um poderoso recurso para a potencialização de nossa Essência Divina.

* Texto explicativo baseado em dados científicos extraídos dos seguintes materiais:
1- Artigo científico:
COSTA, Maria Carolina Meres; FIGUEIREDO, Mariana Cecchetto; CAZENAVE, Silvia de O. Santos. Ayahuasca: uma abordagem toxicológica do uso ritualístico. Revista de Psiquiatria Clínica ISSN 0101-6083. [on-line]. v. 32, n.6, 2005.
2- Parecer técnico-científico do Departamento de Dependência Química da Associação Brasileira de Psiquiatria em função de um pedido da Secretaria Nacional Antidrogas diante da necessidade de se reavaliar o consumo, o controle e as freqüentes denúncias de uso descontextualizado da Ayahuasca. [on-line]. Disponível em: www.viverbem.fmb.unesp.br/…/Consenso%20AYAHUASCA%204.doc.
Bibliografia
CALLAWAY, J. C.; MCKENNA, D. J.; GROB, C. S.; BRITO, G. S.; RAYMON, L. P.; POLAND, R. E.; ANDRADE, E. N.; ANDRADE, E. O.; MASH, D. C. Pharmacokinetics of Hoasca alkaloids in healthy humans. Journal of Ethnopharmacology. Volume 65, Issue 3, jun. 1999, p. 243-256.
CAZENAVE, S. O. S. Alucinógenos. In: Oga, S. Fundamentos de Toxicologia. São Paulo: Atheneu Editora, 1996. 329-343 p.
CAZENAVE, S. O. S. Banisteriopsis caapi: ação alucinógena e uso ritual. Revista de Psiquiatria Clínica, v. 27, 2000, p. 1-6.
KATZUNG, B. G. Farmacologia Básica e Clínica. 6 ed. Rio de Janeiro: Guanabara
Koogan, 1998. 204-206 p.
LABIGALINE, E. J. O uso de Ayahuasca em um contexto religioso por ex-dependentes de álcool. Dissertação (Mestrado em Saúde Mental) – Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo. São Paulo, 1998.
LUNA, L. E. The concept of plants as teachers among four mestizo shamans of Iquitos, northeast Peru. Journal of Ethnopharmacology. v. 11, n. 2, 1984, p. 135-156.
MCKENNA, D. J.; CALLAWAY, J. C.; GROB, C. S. The Scientific Investigation of Ayahuasca: A Review of Past and Current Research. The Heffer Review of Psychedelic Reseach, v. 1, 1998. p. 65-77.
SCHULTES R. E.; HOFMANN A. The Botany and Chemistry of Hallucinogens. Revised and Enlarged Second Edition. C.C. Thomas, Springfield, IL. (1980)
SCHULTES R. E.; HOFMANN A. Plants of the Gods: Their Sacred Healing and Hallucinogenic Powers. 1 ed. Rochester, Vermont: Healing Arts Press, 1992.

Leave a Comment