A essência da Transcendência é a real natureza da Eternidade!
- Melchizedek Maharaji -

Revista Viver Brasil

Entre o céu e a terra

Nossa repórter participou de um ritual de daime-xamanismo e experimentou
o chá que, segundo seguidores, tem o poder de livrar as pessoas
da dependência química e curar quadros graves de depressão

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Ficaria durante séculos tentando traduzir em palavras o que senti naquele momento e ainda assim não conseguiria explicar a você, leitor, o que aconteceu comigo. Foi numa tar­de de domingo que tudo aconteceu. Concordei em participar de um ritual de xamanismo que faz a utilização da ahayuasca ou daime, como a bebida é mais conhecida, e, a partir daí, relatar tudo. O que eu não sabia, entretanto, é que essa seria uma tarefa muito mais difícil do que supunha.

Antes de contar minha experiência cabem algumas explicações. A ayahuasca, nome quéchua (língua indígena da América do Sul) que significa vinho das almas, é uma bebida sacramental utilizada há milênios pe­los povos pré-colombianos da Amazônia. Há registros de seu uso desde 2 mil anos a.C.  Também é chamada de yagéhoasca ou vegetal. Ela é obtida do preparo e cocção do cipó banisteriopsis caapi (jagube) e do arbus­to psycothriaviridis (chacrona). Seus adeptos defendem que, ao ser ingerida, a bebida induz a um estado ampliado de consciência, que permite ao usuário ver e sentir aquilo que ele normalmente não conseguiria no dia-a-dia.

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A partir dessa ampliação da consciência, a pessoa alcançaria nível de auto-conhecimento capaz, inclusive, de transformar suas atitudes. Não é à toa que a ayahuasca também é chamada de planta professora. Estudos mostram ainda que muitas pessoas que fazem o uso correto do daime conseguem, inclusive, se libertar de vícios como as drogas – falarei mais sobre isso adiante.

Feitas essas considerações, posso continuar a contar o que se passou comigo naquela tarde. Cheguei disposta a participar do ritual e a não me deixar levar por pré-conceitos que costumamos ter diante do desconhecido. A celebração foi realizada pelo Instituto Xamânico Céu Guerreiros da Luz, em um sítio em Betim, região metropolitana de BH. Fui vestida conforme solicitado: saia longa, abaixo dos joelhos, e blusa sem decotes, ambas de cores claras.  Ao chegar, fui recebida pelo padrinho (nome que recebe a pessoa que ministra o ritual) e por outros participantes. Em seguida, me deram uma ficha para que preenchesse com todos os meus dados, inclusive com informações médicas. De­pois, paguei uma taxa de 10 reais, valor que eles dizem ser simbólico e referente ao custo que o instituto xamânico tem para fornecer o misterioso líquido.

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Após, adentramos um salão comum, com cadeiras dispostas lado a lado e um corredor no meio. Nas paredes, era possível observar fotos e quadros referentes a diversos ícones de religiões diferentes, como Jesus Cristo, Nossa Senhora da Con­ceição, Buda, entre outros. Havia ainda uma espécie de altar no fundo da sala que também expressava esse sincretismo religioso.

Sentei-me no lado esquerdo do salão, reservado às mulheres (homens e mulheres ficam separados durante o culto). O ritual começou com uma pequena palestra feita pelo padrinho, que falou um pouco sobre aayahuasca e seus efeitos e a necessidade de cada um permanecer calado e quieto em seu lugar durante todo o culto, que teria duração de cinco horas. Terminada a palestra, o padrinho começou a servir ovinho das almas.

A bebida é oferecida em copinhos de 50 ml. Cada pessoa toma duas porções e volta para seu lugar. Para meu paladar, a bebida tem gosto horrível (meu estômago embrulha só de lembrar). Amarga. Senti-me uma criança fazendo careta ao tomar algumas gotinhas de dipirona. Por causa do gosto nada agradável do daime, uma tigela com frutas fica disposta logo à frente para que a pessoa possa adocicar a boca.

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Voltei para a cadeira e fechei os olhos, conforme recomendação. Senti leve incômodo, mas nada demais. Achei que não passaria daquilo. Estava enganada. Em alguns minutos comecei a suar muito. Senti que meu corpo ficou diferente, meio dormente e comecei a ficar fraca. Não tive medo, mas não conseguia me manter ereta na cadeira. Queria descobrir o que  estava acontecendo comigo, apesar de todas aquelas sensações parecerem inexplicáveis.

Era apenas o início de uma lon­ga viagem. Não, caro leitor, ayahuasca não é droga e eu não esta­va tendo alucinações – pelo menos é o que dizem as pesquisas. Uma das substâncias que o chá contém é adimetiltriptamina ou DMT. Mas a concentração mínima de DMT necessária pa­ra que uma bebida seja considerada droga ou cause alucinações deve ser superior a 2%. Na ayahuasca o percentual é de 0,02%, ou seja, 100 vezes menor do que a quantidade mínima.

Como explicar, então, todas as sensações que se tem ao ingerir o daime? E a impressão de ver outro mundo mesmo estando com os olhos fechados? Concluí que se tratava de algo muito além da minha compreensão. A viagem era, sem dúvida, sobrenatural. Fisicamente, me senti debilitada e com muito frio. Mas, logo, uma das fiscais (pessoas que são preparadas e designadas pelo padrinho para auxiliar na realização do ritual) me conduziu a um colchonete para que eu me deitasse. Aquietei. Enquanto isso, músicas indígenas ou com temas religiosos tocavam durante todo o tempo. Em nenhum momento perdi a consciência de quem eu era e de onde estava. Muitas vezes, porém, tive vontade de ir embora, pois o enjoo que sentia era muito forte (sensação que só passaria no dia seguinte).

Poderia dizer o que vi, o que senti (sim, vi e senti inúmeras coisas), mas, conforme-se, amigo leitor: a experiência é individual. Isso significa que o que eu vi, ouvi e senti não é o mesmo que você veria, ouviria e sentiria. O que posso afirmar, com certeza, é que aquele experimento mexeu com meu íntimo e que o daime realmente leva a um estado de ampliação da consciência. Em muitos momentos durante o ritual tive ânsia de vômito e dor de barriga. Segundo os adeptos da crença, trata-se de um processo de limpeza do organismo e também espiritual. Isso não significa que todo mundo que ingere o líquido passa mal. Afinal, somos diferentes.

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Asseguro, porém, que esse mal-estar físico em nada se compara com a sen­sação de bem-estar que vem depois. Sei apenas que, a partir das reflexões e sensações que tive naquelas cinco horas, saí disposta a rever uma série de conceitos na minha vida e, apartir disso, tentar me tornar um ser humano melhor: mais solidário, mais paciente e, principalmente, mais consciente das minhas atitudes. Isso talvez explique por que muitas pessoas que começaram a fazer uso da ayahuasca abandonaram as drogas. Pesquisas recentes apontam que a bebida também se mostrou eficaz na recuperação de quadros graves de depressão. Um desses estudos foi realizado pelo departamento de Neurociências e Ciências do Comportamento da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.

De acordo com Wellerson Abreu de Oliveira, padrinho do Instituto Xamânico Céu Guerreiros da Luz,  a obra do seu Centro tem por objetivo disseminar o correto uso dodaime, retomando a finalidade original da bebida: permitir a ampliação da consciência e a busca do autoconhecimento a fim de que o ser humano dê vazão ao ser e não ao ter.

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Oliveira explica que, durante muitos anos, outras correntes que também fazem uso dodaime em rituais acabaram misturando a bebida sagrada com drogas como maconha e cocaína. Para mudar isso, entidades como a, que também é ligada ao CNSC, estão sendo criadas a fim de divulgar os benefícios sociais, psicológicos e espirituais do uso da bebida.

O caso do web designer Ramon Ramos Sepúlveda, 23, é interessante. Ramon diz que estava levando uma vida de excessos quando foi convidado por um amigo para ir a um ritual de daime-xamanismo. Isso foi há três meses. Nesse meio tempo, entretanto, ele diz que muita coisa já mudou.  “Parei de beber e me sinto curado da depressão”, celebra.

Naquele domingo, um filme não parava de passar em minha cabeça e sentia-me invadida por uma sensação de paz absoluta ao deixar o sítio. Entendi que Shakespeare sabia o que falava quando afirmou queexistem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia…

Saiba mais

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– Entre 1991 e 1993, a Universidade Federal de São Paulo (antiga Escola Paulista de Medicina), de Campinas, do estado do Rio de Janeiro, do Amazonas, o Instituto Nacional de Pesquisas Amazônicas (INPA), a Universidade da Califórnia, de Miami, do Novo México e de Kuopio (Finlândia), foram convidados por iniciativa da União do Vegetal, para gerenciar uma pesquisa científica. Foram aplicados testes laboratoriais e questionários, dentro dos procedimentos científicos padrões, em usuários da ayahuasca. Eram pessoas de faixas etárias variadas, dos meios urbano e rural, frequentadores assíduos dos cultos.

Os testes também  foram executados em não-usuários, servindo de grupo de controle. A avaliação psiquiátrica conduzida pelo Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo, Centro de Referência da Organização Mundial da Saúde, não encontrou entre os usuários nenhum caso de dependência, abuso ou perda social pelo uso daayahuasca, aspectos presentes em usuários de drogas proscritas pela legislação.

– As conclusões comparativas foram surpreendentes. A primeira delas, confirmando que a bebida é inócua do ponto de vista toxicológico: não se constatou “nenhuma diferença significante no sistema neurosensorial, circulatório, renal, respiratório, digestivo, endócrino entre os grupos experimentadores e de controle”.

– Foi com o Santo Daime que a ayahuasca ficou um pouco mais conhecida, através de Raimundo Irineu Serra, fundador da religião. Seringueiro, Mestre Irineu como é conhecido por seus adeptos, viveu no estado do Acre, na localidade denominada Alto Santo. Ministrou rituais com a bebida até a sua morte, em 6 de julho de 1971, sem deixar sucessor, mas a doutrina manteve-se com seus seguidores.

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Nas últimas décadas, com a expansão do uso ritualístico da ayahuasca para além das fronteiras da floresta amazônica, as doutrinas que fazem uso do chá ganharam mais adeptos em todo o Brasil, sendo elas: o Santo Daime, a  União do Vegetal, aBarquinha e o Daime – Xamanismo.

– Mais recentemente, foi enviado no dia 30 de abril de 2008 para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional pelo ex-ministro Gilberto Gil o pedido de reconhecimento do uso do chá ayahuascaem rituais religiosos como patrimônio imaterial da cultura brasileira, que está em trâmite.

– Após 18 anos de estudos, em resolução publicada no Diário Oficial em de novembro de 2004, o Conselho Nacional Antidrogas (Conad) retirou a ayahuasca da lista de substâncias entorpecentes, reconhecendo, juridicamente, a legitimidade do uso da bebida em rituais religiosos

– “O xamanismo ensina, desde os primórdios da nossa raça – rituais xamânicos sagrados datam, por constatações científicas, de 20 mil anos atrás –, que uma consciência perscruta nosso ser. Na verdade, o mais belo ensinamento é o de que nós somos esse ser, essa consciência. Além dela, o outro, o ego, a personificação do que decidimos encenar nesta encarnação, também chamado mente racional. Uma vez consciente de ambos, o horizonte se transforma, e podemos escolher qual lado alimentar. Baseado na integração e regido pelo universalismo, o xamanismo respeita tudo que existe e desvela o poder de cura através do espírito. Essa força, elemental e dos guias do planeta, torna o momento presente o mais precioso de todos.”

Fontes: Céu Guerreiros da Luz.